Você já imaginou pegar um carro em Madri, atravessar parte da Espanha, almoçar em uma cidade medieval impressionante, visitar vinícolas centenárias em menos de cinco horas e encerrar o fim de semana entre arquitetura icônica e um dos museus de vinho mais completos da Europa?
Essa foi a nossa realidade em La Rioja, em julho de 2024.
Neste post, compartilhamos o roteiro completo — de quinta a sábado — com tudo o que funcionou, o que foi intenso demais e o que faríamos diferente hoje. Do jeito que a gente vive e conta: real, sem glamour artificial, com erros, acertos e histórias que só surgem quando a viagem acontece de verdade.
Carro alugado, estrada e a primeira mudança de ritmo
Na quinta-feira cedo, pegamos o carro alugado pela Rent Cars em Madri e partimos em direção a Rioja. Escolhemos dirigir porque queríamos liberdade — liberdade para mudar planos, parar pelo caminho e sentir a transição entre a capital espanhola e o interior do país. Escolhemos a Rent Cars por conta do pagamento em até 12x sem juros, além de ser em reais sem IOF, e até 10% de cashback. Veja as cotações na Rent Cars aqui!
A estrada é excelente, bem sinalizada e agradável de dirigir. Aos poucos, a paisagem urbana vai dando lugar a campos mais abertos, girassóis, vilarejos discretos e um ritmo que já antecipa o que viria pela frente.
Depois de algumas horas, chegamos a Burgos.

Burgos: uma cidade medieval que surpreende
Burgos foi uma surpresa enorme.
Fundada no século IX, a cidade teve papel central na história da Espanha medieval e isso ainda é visível em cada detalhe. O centro histórico é compacto, elegante e carregado de identidade. Caminhar por ali é como atravessar camadas de tempo sem esforço.
A Catedral de Santa Maria, Patrimônio Mundial da UNESCO, domina a paisagem com sua imponência gótica. Mas Burgos vai além dela: ruas estreitas, praças silenciosas, fachadas antigas e uma sensação constante de que a cidade não foi moldada para turistas apressados.
Caminhamos sem pressa, absorvendo o clima, até subir ao Mirante do Castelo, de onde se tem uma das vistas mais bonitas da cidade. Lá de cima, Burgos se revela inteira, com seus telhados, torres e o traçado urbano medieval ainda bem definido.
Na descida, descobrimos quase por acaso uma pequena joia: a Macadamia, uma pastelería no centro histórico. Provamos alguns biscoitos ali mesmo e levamos outros para o lanche da tarde — uma pausa simples, mas que ficou marcada na memória.










Almoço no La Fábrica: uma montanha-russa gastronômica
Para o almoço, escolhemos o La Fábrica, restaurante comandado por um chef com estrela Michelin. Optamos por um menu de quatro etapas, imaginando algo mais linear. Não foi.
As entradas chegaram impecáveis, cheias de sabor e técnica. O prato principal não acompanhou a expectativa que criamos, o arroz estava duro, a carne de porco mal passada, faltava tempero. Já a sobremesa foi absolutamente impressionante, daquelas que ressignificam a refeição inteira: era um sorbet de frutas vermelhas e chocolate em várias texturas.
Saímos com aquela sensação curiosa de que o final salvou tudo — e salvou mesmo. Um almoço imperfeito, mas honesto, que combinou muito com o espírito da viagem. Afinal, 28 euros por pessoa para um almoço de 4 etapas com “una copa de vino” pode até ser considerado barato.







Depois disso, seguimos viagem até Haro, já com a sensação clara de que o fim de semana seria intenso.
Onde ficamos em Haro: Puracepa Urban Suites
Chegar a Haro no fim do dia e fazer o check-in no Puracepa Urban Suites foi um verdadeiro alívio.
A hospedagem superou as expectativas. O quarto era amplo, silencioso, muito bem cuidado e tinha até banheira — daquelas que fazem diferença depois de horas na estrada e que seriam ainda mais valorizadas após os dias de vinícola. Reservamos antecipadamente pelo Booking. (Saiba mais clicando aqui)
Tudo estava limpo, organizado e confortável, exatamente o que precisávamos para sustentar o ritmo do roteiro.
Um café da manhã que sustenta o dia
O café da manhã foi um dos grandes destaques da estadia. Variado, bem servido e com produtos de qualidade, ele foi essencial para começar a sexta-feira com energia.
Não era só sobre comer: era sobre sentar, respirar fundo, revisar o plano do dia e se preparar mentalmente para o calor e as muitas taças de vinho que nos aguardavam.

Localização estratégica
Outro grande acerto foi a localização. Estávamos perto do centro de Haro, o que facilitou toda a logística: sair cedo, voltar sem estresse e circular com facilidade pelo Barrio de la Estación.
Em uma região onde os horários das vinícolas são restritos, isso faz toda a diferença.
Sexta-feira — Haro, calor extremo e o roteiro maluco das vinícolas
A sexta começou cedo e extremamente quente. O termômetro marcava quase 40 °C e, no verão espanhol, existe um detalhe importante: as vinícolas abrem tarde e fecham cedo.
Na prática, isso nos deixou com cerca de cinco horas reais para tentar visitar o máximo possível em uma das regiões vinícolas mais concentradas do mundo.
Parecia absurdo.
E era.
Mesmo assim, decidimos abraçar a ideia.
Rioja faz parte da Denominación de Origen Calificada (DOCa), a mais antiga da Espanha, com centenas de vinícolas espalhadas por milhares de hectares. Em Haro, muitas delas estão literalmente uma ao lado da outra — uma oportunidade rara, mesmo com pouco tempo.



Cinco vinícolas em menos de cinco horas
Foi loucura? Foi.
A gente se arrepende? Não.
Visitamos, em sequência:
- Bodegas Muga
- Gómez Cruzado
- Bodegas Rioja Alta
- Bodegas Roda
- CVNE
Foram 14 taças de vinho, tapas estratégicas, muita água, pausas para respirar e decisões questionáveis — como personalizar um rótulo da CVNE no fim do dia.
Se deu certo?
Deu história. E isso já valeu.
Bodegas Muga
A Bodegas Muga é uma das vinícolas mais tradicionais e respeitadas da Rioja Alta, localizada no histórico Barrio de la Estación, em Haro. Fundada em 1932, a Muga segue até hoje como uma vinícola familiar, reconhecida por preservar métodos artesanais raros no mundo do vinho.
Um dos grandes diferenciais da Bodegas Muga é o fato de fabricar as próprias barricas de carvalho, contando com um mestre tonelero interno — algo cada vez mais incomum. Além disso, a vinificação prioriza processos tradicionais, como fermentação em madeira e trasfegas por gravidade, respeitando o tempo e o terroir da região.
Seus vinhos refletem o estilo clássico de Rioja, com elegância, complexidade e excelente potencial de guarda. Rótulos como Prado Enea Gran Reserva, Torre Muga e Selección Especial estão entre os mais emblemáticos da Espanha, tornando a visita à Muga praticamente obrigatória para quem faz enoturismo em Haro.
Aqui começamos empolgados demais. Foi a única vinícola em Haro que resolvemos fazer a visitação, justamente para otimizar nosso tempo. A visita foi longa e detalhada, com explicações sobre a produção própria de barris de carvalho francês e o uso tradicional de clara de ovo na filtragem. A degustação completa acabou se estendendo com vinhos extras no balcão, queríamos provar mais vinhos depois da visitação sensacional.





Gómez Cruzado
A Bodegas Gómez Cruzado é uma das vinícolas históricas do Barrio de la Estación, em Haro, e se destaca por um perfil mais intimista, elegante e focado na qualidade. Fundada em 1886, é uma das bodegas mais antigas de Rioja e mantém até hoje uma produção cuidadosa, sem excessos ou grandes volumes.
A Gómez Cruzado trabalha com vinhedos próprios e de pequenos produtores da região, valorizando o terroir da Rioja Alta e uma vinificação precisa, que busca equilíbrio e expressão do vinho, sem perder identidade. A visita costuma ser mais tranquila e próxima, permitindo entender melhor os processos e provar os vinhos com calma.
Seus rótulos refletem um estilo clássico, mas com frescor e acessibilidade, o que torna a Gómez Cruzado uma ótima parada para quem quer conhecer Rioja de forma menos turística e mais autêntica, especialmente durante um roteiro a pé pelo Barrio de la Estación.
E aqui aprendemos a importância vital de tapas e água. Pedimos uma taça de vinho tinto e uma de vinho branco. Cada taça vinha acompanhada de algo para comer, o que tornou o calor um pouco mais suportável e ajudou a manter o ritmo.

Rioja Alta
A Bodegas Rioja Alta é uma das vinícolas mais importantes e respeitadas da Rioja Alta e também está localizada no tradicional Barrio de la Estación, em Haro. Fundada em 1890, a bodega é referência absoluta quando se fala em vinhos clássicos de Rioja, com foco em longevidade, elegância e fidelidade ao estilo tradicional da região.
A Rioja Alta é conhecida pelo controle rigoroso de qualidade, desde os vinhedos até o envelhecimento dos vinhos, que acontece majoritariamente em barricas próprias de carvalho americano, fabricadas pela própria vinícola. O cuidado com o tempo de maturação é um dos pilares da casa, resultando em vinhos equilibrados, complexos e com grande potencial de guarda.
Rótulos icônicos como Viña Ardanza, Viña Alberdi e Gran Reserva 904 tornaram a Bodegas Rioja Alta um nome incontornável no enoturismo espanhol, sendo uma parada essencial para quem quer entender a essência do vinho tradicional de Rioja em um roteiro por Haro.
Já mais conscientes, dividimos uma taça de Gran Reserva Viña Ardanza 2016 no wine bar (El Garaje del Club de Cosecheros). O vinho estava impecável, mas o corpo já começava a sentir o impacto do calor. A água da casa é de graça, então não tenha vergonha de solicitar no balcão. Aqui também pedimos uma tábua de frios para acompanhar.




Bodegas Roda
A Bodegas Roda é uma das vinícolas mais contemporâneas do Barrio de la Estación, em Haro, e representa uma nova leitura dos vinhos de Rioja, sem romper com a tradição. Fundada em 1987, a Roda rapidamente conquistou prestígio por sua abordagem inovadora, focada em pureza da fruta, elegância e precisão técnica.
A filosofia da Bodegas Roda prioriza o estudo detalhado dos vinhedos, a colheita manual e a seleção rigorosa das uvas, resultando em vinhos que expressam claramente o terroir da Rioja Alta. O envelhecimento acontece majoritariamente em barricas de carvalho francês, contribuindo para um perfil mais refinado e menos marcado pela madeira. A visita à Roda costuma ser mais rápida e objetiva, ideal para quem quer incluir uma vinícola de perfil moderno no roteiro por Haro, equilibrando o dia entre bodegas tradicionais e propostas mais atuais.
Também escolhemos tomar apenas uma taça na loja da vinícola. Sentar, esfriar o corpo e desacelerar por alguns minutos foi essencial para seguir.



CVNE
A CVNE — Compañía Vinícola del Norte de España — é uma das vinícolas mais históricas e emblemáticas de La Rioja, fundada em 1879 e também localizada no Barrio de la Estación, em Haro. Poucas bodegas representam tão bem a evolução do vinho espanhol ao longo dos séculos quanto a CVNE.
A vinícola combina tradição e inovação, mantendo métodos clássicos de envelhecimento ao mesmo tempo em que investe em tecnologia e pesquisa. Seu portfólio é amplo, mas rótulos como Imperial Gran Reserva, Viña Real e Monopole são referências absolutas dentro e fora da Espanha.
Além dos vinhos, a CVNE se destaca pela experiência de visitação bem estruturada e acessível, sendo uma excelente escolha tanto para quem está começando no enoturismo quanto para quem já conhece a região. É também uma parada estratégica no fim do dia, já que costuma ter horários mais flexíveis.
Essa vinícola foi nossa última parada do dia e a única ainda aberta no fim da tarde. Espumante, Gran Reserva, tábua de frios e a decisão final de eternizar nossa felicidade em um rótulo personalizado para nossa caixa do casamento.


Sábado — Vinho, arquitetura e um ritmo mais tranquilo
Depois do caos controlado da sexta-feira, o sábado tinha outro ritmo. Já havíamos contratado um transfer previamente, pois as vinícolas desse dia eram mais afastadas.
Marqués de Riscal
Começamos pela icônica Marqués de Riscal. A Marqués de Riscal é uma das vinícolas mais famosas e históricas da Espanha, localizada em Elciego, na Rioja Alavesa. Fundada em 1858, a bodega é referência mundial por unir vinhos de alta qualidade, inovação constante e uma identidade visual única.
Além dos vinhos, o grande símbolo da Marqués de Riscal é o edifício projetado por Frank Gehry, cuja arquitetura arrojada se tornou um dos ícones do enoturismo europeu. O contraste entre tradição e modernidade reflete exatamente a filosofia da casa.
Seus rótulos, como Marqués de Riscal Reserva, XR Reserva e Barón de Chirel, são reconhecidos internacionalmente e ajudam a consolidar a vinícola como uma parada indispensável para quem visita Rioja. A experiência de visitação é completa, bem organizada e ideal para quem busca aliar vinho, história e design em um único lugar.
Fizemos a degustação Marqués de Riscal 3, com uma visita guiada extremamente bem conduzida. Degustamos o Limousin, o XR Reserva e o Barón de Chirel, acompanhados de queijos e jamón ibérico. Saímos, claro, com algumas garrafas a mais do que o planejado.




Campillo
A Bodegas Campillo está localizada próxima a Laguardia, na Rioja Alavesa, e é conhecida por unir arquitetura imponente, vinhos clássicos e uma experiência de visitação muito bem organizada. A vinícola faz parte do Grupo Faustino, um dos mais importantes da Espanha, o que se reflete no alto padrão de produção e hospitalidade.
A Campillo trabalha com foco em vinhos elegantes, equilibrados e com bom potencial de guarda, respeitando o estilo tradicional de Rioja, mas com uma abordagem acessível para visitantes. A visita foi bem fluida, didática e agradável, sendo uma excelente opção para quem busca uma experiência completa sem excessos técnicos. Lá eles também possuem várias exposições de arte nos diversos salões do edifício.





Ysios
A Bodegas Ysios é uma das vinícolas mais fotografadas da Espanha, localizada aos pés da Serra de Cantabria, em Laguardia, na Rioja Alavesa. Seu edifício moderno, assinado pelo arquiteto Santiago Calatrava, se integra de forma impressionante à paisagem dos vinhedos.
A proposta da Ysios combina design contemporâneo com vinhos de perfil elegante e refinado. Mesmo em visitas mais rápidas — como uma degustação pontual — a experiência já entrega muito, especialmente pelo impacto visual do lugar. É uma parada ideal para quem quer incluir arquitetura, paisagem e vinho em um roteiro mais enxuto.
Na Bodegas Ysios, conhecemos o winebar e degustamos apenas uma taça com queijos. A arquitetura moderna integrada à paisagem e a vista para os vinhedos já entregam muito da experiência.




Vivanco e o museu
Encerramos o roteiro na Vivanco, onde além da vinícola visitamos o Museu Vivanco do Vinho, um dos mais completos da Europa. A Bodegas Vivanco está localizada em Briones, também na Rioja Alta.
Mais do que uma degustação, a visita à Vivanco é um mergulho na história do vinho, passando por arte, arqueologia, cultura e produção. O museu complementa perfeitamente a experiência da vinícola, tornando essa parada ideal para fechar um roteiro com mais contexto e profundidade cultural — especialmente para quem quer entender o vinho para além da taça. Ali, o vinho deixa de ser apenas bebida e passa a ser cultura, história e arte.
Em relação à visitação e degustação guiada em si, achamos fraca em comparação às outras vinícolas. A degustação tinha poucas informações sobre os rótulos ofertados.

O que aprendemos com esse final de semana
Rioja merece mais dias.
No verão, horários são tudo.
Carro dá liberdade; transfer dá tranquilidade.
Dormir bem e tomar um bom café da manhã sustentam experiências intensas.
E nem todo roteiro precisa ser perfeito para ser inesquecível.